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8 de março de 2011

O grande dia...

 SEMANA DA MULHER

 
 Vítimas de ataques com ácido fazem vigília onde pedem o fim da violência contra as mulheres em Dacca, Bangladesh. Ataques com ácido são comuns em países como Camboja, Afeganistão, Índia, Bangladesh e Paquistão.

DIA INTERNACIONAL DA MULHER
 
Eis que hoje é o grande dia, o Dia Internacional da Mulher, e quem acompanha meu blog sabe que estou homenageando a minha (nossa) classe há alguns dias. Já passaram por aqui Cora Coralina, Cecília Meireles, Anita Malfatti e hoje, fiquei com uma imensa dúvida: o texto de quem eu postaria hoje? Então lembrei que hoje é o aniversário de uma professora muito querida que tive na faculdade, a professora (feminista e feminíssima) Cátia Toledo. Lembrei-me também de um texto belíssimo dessa admiradora e, digamos, "difusora" da obra da Marina Colasanti. Como forma de homenageá-la nessa data que é duplamente dela, resolvi postar um belíssimo poema dessa "professora tecelã" (quem teve aulas com ela sabe do que estou falando, e quem não teve, amanhã postarei aqui o conto "A moça tecelã", da Marina Colasanti para entender).

Que nessa data tão especial e simbólica,  data em que celebramos muitas conquistas, nós possamos refletir sobre nossa condição na sociedade. Que nós possamos nos valorizar cada vez mais, fazendo por merecer nosso tão sonhado espaço no mercado de trabalho. Que tenhamos força, e principalmente, espírito de união para conquistarmos muito mais, e que façamos valer os direitos já adquiridos. Penso que precisamos nos unir mais, é o que sinto ainda. Acredito que a competitividade é um ponto negativo da nossa classe, isso porque, nossa natureza ainda é muito territorialista e digo, sem medo de retaliações, que perdemos espaço para os homens por causa disso. Mulheres, a união faz a força, olhe para a história, olhe para trás, ninguém mudou nada sozinha. Nossa união fez e fará (sempre),  toda a diferença!

MULHER, PARABÉNS PELO SEU DIA!!!

***

As minhas mulheres

Das várias mulheres que me habitam,
uma anda querendo sorrir.
Vejo seu ensaio,
seu lábio que de soslaio esboça
uma alegria de viver,antiga,
esquecida num porão qualquer.

Cansada de ser triste, me chama para o sol
para um azul qualquer
e insiste em ser feliz.

Todas as outras a condenam.
Lembram-lhe a solidão da noite
o vazio da cama
a falta do companheiro esperado
e perdido...
Falam-lhe da dor
da vontade de morrer
de todos os dias cinzentos...

As outras
Dizem-lhe que se cale
que é melhor ficar quieta, calada
esperando que o tempo passe
para que um dia, afinal,
se possam reunir amado e amada
num mundo perfeito
sem doença
em que seremos só a essência
e a alegria do reencontro.

Ela, no entanto,
faz-se criança...
Deixa que transpareça
o brilho nos olhos,
há muito baços,
e insiste no canto dos pássaros
no brilho do sol
e na música,
que lava a alma....

Fala-me dos segredos
que podem estar por vir
mas que precisam querer
precisam da vontade
do prazer
de viver.

O que faço com essas mulheres?
que destino tomar?
De fênix, de condor,
de cotovia a rouxinol...
Quem levará a todas
a mensagem de vida
que me mantém? 
Cátia Toledo Mendonça

Possui graduação em Letras pela Universidade Federal do Amazonas (1987), mestrado em Letras pela Universidade Federal do Paraná (2000) e doutorado em Letras pela Universidade Federal do Paraná (2006). Atualmente é professora adjunto i da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Infanto Juvenil, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura infantil, leitura, literatura juvenil, e formação do professor. Tem dado assessoria pedagógica a diversos estebelecimentos de ensino, enfatizando a importância da leitura literária no Ensino Fundamental.

6 de março de 2011

Mulher ao espelho...

SEMANA DA MULHER

Mulher ao espelho, 1932, Pablo Picasso

Mulher ao espelho

Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.


Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?


Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando. 
.
Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seu
se morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.


***
Cecília Benevides de Carvalho Meireles foi uma das mais habilidosas, apresentando cuidadosa seleção vocabular, numa linguagem que explora simbolismos complexos frequentemente simples na forma. Uma poesia que contém imagens sugestivas, sobretudo as de forte apelo sensorial, reflexiva, de fundo filosófico. Abordou, entre outros, temas como a transitoriedade da vida, a efemeridade do tempo, o amor, o infinito, a natureza, a criação artística. Além disso, a frequência com que os elementos como o vento, a água, o mar, o ar, o tempo, o espaço, a solidão e a música aparecem em sua poesia dá-lhe um caráter fluido e etéreo, que confirmam a inclinação neo-simbolista da sua poesia, confirmando sua importante posição na literatura brasileira do século XX.
       Poetisa, professora, pedagoga e jornalista, Cecília Meireles nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 7 de novembro de 1901 e veio a falecer na mesma cidade em 1964. Casou-se duas vezes e deixou três filhas.
      Entre 1925 e 1939, dedicou-se a sua carreira docente publicando vários livros infantis e fundando, em 1934, a Biblioteca Infantil do Rio de Janeiro. A partir desse ano, ensinou Literatura Brasileira em Portugal (Lisboa e Coimbra) e, em 1936, foi nomeada para a Universidade Federal do Rio de Janeiro, recém-fundada.
      Cecília reaparece no cenário poético, após 14 anos de silêncio, com “Viagem” (1939), considerado um marco de maturidade e individualidade na sua obra: recebeu o prêmio de poesia daquele ano da Academia Brasileira de Letras. Daí em diante, dedicou-se à carreira literária, publicando regularmente até a sua morte.
      Escreveu também em prosa, dedicando-se a assuntos pedagógicos e folclóricos. Produziu também prosa lírica, com temas versando sobre sua infância, suas viagens e crônicas circunstanciais. Algumas de suas obras em prosa: "Giroflê, Giroflá" (1956), "Escolha seu Sonho" (1964) e "Inéditos" (crônicas, 1968).

Fonte: http://www.lusofoniapoetica.com/index.php/artigos/poesia-brasil/cecilia-meireles.html

5 de março de 2011

Mulheres com M maiúsculo...

 SEMANA DA MULHER

Já não é novidade pra ninguém: uma propaganda ali, uma promoção acolá, todos sabem (ou deveriam saber), que o dia 08 de Março é o Dia Internacional da Mulher, e para comemorar a simbólica data, a partir de hoje, postarei poemas, textos, entrevistas e até mesmo, obras de arte de mulheres maravilhosas que revolucionaram, de alguma forma, as artes e a educação do nosso país.
Como não poderia ser diferente, a escolhida para estrear a "edição especial" deste humilde Blog será a minha amada Cora Coralina, ou Cora Coralinda, como costumo chamá-la na intimidade.
***
CORA CORALINA, QUEM É VOCÊ?



Sou mulher como outra qualquer.
Venho do século passado
e trago comigo todas as idades.
Nasci numa rebaixa de serra
Entre serras e morros.
“Longe de todos os lugares”.
Numa cidade de onde levaram
o ouro e deixaram as pedras.
Junto a estas decorreram
a minha infância e adolescência.
Aos meus anseios respondiam
as escarpas agrestes.
E eu fechada dentro
da imensa serrania
que se azulava na distância longínqua.

Numa ânsia de vida eu abria
O vôo nas asas impossíveis
do sonho.

Venho do século passado.
Pertenço a uma geração
ponte, entre a libertação
dos escravos e o trabalhador livre.
Entre a monarquia caída e a república
que se instalava.

Todo o ranço do passado era presente.
A brutalidade, a incompreensão, a ignorância, o carrancismo.
Os castigos corporais.
Nas casas. Nas escolas.
Nos quartéis e nas roças.
A criança não tinha vez,
Os adultos eram sádicos
  aplicavam castigos humilhantes.


Tive uma velha mestra que já
havia ensinado uma geração
antes da minha.
Os métodos de ensino eram
antiquados e aprendi as letras
em livros superados de que
ninguém mais fala.
Nunca os algarismos me
entraram no entendimento.
De certo pela pobreza que marcaria
Para sempre minha vida.
Precisei pouco dos números.



Sendo eu mais doméstica 
do que intelectual,
não escrevo jamais de forma
consciente e racionada, e sim
impelida por um impulso incontrolável.
Sendo assim, tenho a
consciência de ser autêntica.
Nasci para escrever, mas, o meio,
o tempo, as criaturas e fatores
outros, contra-marcaram minha vida.

Sou mais doceira e cozinheira
Do que escritora, sendo a culinária
a mais nobre de todas as Artes:
objetiva, concreta, jamais abstrata
a que está ligada à vida e  à saúde humana.

Nunca recebi estímulos familiares 
para ser literata.
Sempre houve na família, 
senão uma hostilidade, pelo menos
uma reserva determinada   
     a essa minha tendência inata. 




Talvez, por tudo isso e muito mais, 
sinta dentro de mim, 
no fundo dos meus reservatórios secretos, 
um vago desejo de analfabetismo.
Sobrevivi, me recompondo aos
bocados, à dura compreensão dos
rígidos preconceitos do passado.
Preconceitos de classe.
Preconceitos de cor e de família.
Preconceitos econômicos.
Férreos preconceitos sociais.
A escola da vida me suplementou
as deficiências da escola primária
  que outras o destino não me deu.

Foi assim que cheguei
a este livro
Sem referências a mencionar.

Nenhum primeiro prêmio.
Nenhum segundo lugar.

Nem Menção Honrosa.
Nenhuma Láurea.

Apenas a autenticidade da minha
poesia arrancada aos pedaços
do fundo da minha sensibilidade,
e este anseio:
procuro superar todos os dias




Minha própria personalidade
renovada, despedaçando 

dentro de mim
tudo que é velho e morto.

Luta, a palavra vibrante
que levanta os fracos
e determina os fortes.

Quem sentirá a Vida
destas páginas...
Gerações que hão de vir
de gerações que vão nascer.



Meu Livro de Cordel, p.73 -76, 8°ed, 1998
Fonte: http://www.casadecoracoralina.com.br/poemas2.html